Cover of Duas Apostas

Classic · Brazilian Portuguese

Duas Apostas — a short story by Artur de Azevedo, in Portuguese with help

By Artur de Azevedo, 1906

Comendador Salazar, a disagreeable merchant, scoffs that a new newspaper, O Século, won't last a month.

Level
B2
Time
4 min
Length
464 words
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The story

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Duas Apostas

Quando apareceu o primeiro número d'o Século, o Comendador Salazar, que encontrou um exemplar em casa, tomou-o entre as mãos, percorreu-o rapidamente com os olhos e disse, com aquele ar impertinente e desdenhoso que faz dele, benza-o Deus, um dos negociantes mais antipáticos da nossa praça:

— Isto não tem vida para um mês!

— Por que, papai? - perguntou a senhorita Esmeralda.

— Porque não tem. É um jornaleco que não me inspira a menor confiança.

A moça, que gostava de contrariar o autor dos seus dias, redargüiu logo:

— Pois eu estou convencida de que este jornal tem vida para muito tempo!

— Por que, minha filha?

— Porque tem.

— Veremos.

Havia oito dias que Esmeralda tinha sido pedida em casamento pelo Sousinha, e o Comendador Salazar respondera que era muito cedo: a filha não tinha ainda completado 17 anos, e o pretendente acabava apenas de atingir a maioridade.

— É muito cedo para pensarem em casamento! - sentenciara ele.

Mas, voltando a O Século:

— Com que então, papai é de parecer que este jornal será efêmero?

— Já te disse que sim!

— Pois bem: façamos uma aposta. Se O Século não viver um ano, eu bordarei um par de chinelos de lá para papai; se viver... no dia em que ele completar o primeiro aniversário, papai consentirá no meu casamento com seu Sousinha.

O comendador soltou uma gargalhada e disse:

— Pois está dito!

Imaginem agora os leitores com que interesse Esmeralda e o Sousinha acompanhavam a vida d'O Século! A moça comprava todas as tardes um número da folha, e colocava-o bem à vista, sobre a mesa de jantar, para que o pai o visse.

— Então O Século ainda vive?

— Ainda, e não parece disposto a morrer!

— Pois sim! Qualquer dia desaparece da circulação!

No dia em que O Século completou o seu primeiro aniversário, Esmeralda lembrou ao pai a aposta, e o nosso comendador teve que se submeter.

Fez-se o casamento, e, passados alguns dias, o sogro lamentava-se em conversa com sua esposa:

— Casamos a pequena com um criançola! Hás de ver que aquele maricas tão cedo não nos dará um neto!

A filha, que passava e ouviu, acudiu prontamente:

— Vamos fazer uma aposta, papai?

— Que aposta?

— Se no dia em que O Século completar o segundo aniversário o senhor não tiver ainda a satisfação de ser avô, eu bordarei aquelas famosas chinelas... se tiver, abrirá com um conto de réis uma caderneta da Caixa Econômica, em favor do pequeno... ou da pequena...

Há dois meses Esmeralda é mãe e o comendador já se explicou com o conto de réis.

O outro dia ela chegou-se ao pai, e disse:

— Vamos fazer outra aposta?

— Qual?

— Se no dia em que O Século completar o terceiro aniversário...

— Nada! nada! não me apanhas! O tal Século tem vida para... um século!

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