Cover of O Último Palpite

Classic · Brazilian Portuguese

O Último Palpite — a short story by Artur de Azevedo, in Portuguese with help

By Artur de Azevedo

A family in Rio is obsessed with the jogo do bicho, the illegal animal lottery, and with his last breath the dying father tells his wife to bet everything on the dog.

Level
B2
Time
3 min
Length
300 words
Audio
Read aloud

The story

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B2300 words 3 minRead with tap-to-translate →

O Último Palpite

O caso que vou narrar não é inventado; passou-se, não há muito tempo, no bairro do Engenho Velho.

Havia ali uma família que se deixou dominar pelo jogo do bicho, a ponto de não pensar em outra coisa. Desde pela manhã até à noite havia naquela casa dois assuntos exclusivos de todas as conversas: o bicho que tinha dado e o bicho que ia dar.

O chefe da família era um cardíaco, e quero crer que foram as emoções do jogo que o atiraram na cama para nunca mais se levantar.

Momentos antes de morrer, o pobre homem, cercado pela mulher e os filhos, acenou como se quisesse dizer alguma coisa. A senhora debruçou-se sobre ele, e o moribundo, fazendo um esforço supremo, proferiu estas palavras:

— Joga tudo no cachorro!

Cinco minutos depois exalava o último suspiro.

A viúva, na ocasião em que, debulhada em lágrimas, dava as necessárias ordens para o enterro, lembrou-se, por pegar em dinheiro, da recomendação do defunto; chamou o copeiro e disse-lhe:

— José, vai jogar dez mil-réis no cachorro. Não creio que dê, porque ainda anteontem deu, mas devo respeitar o último palpite do meu marido. É um palpite sagrado!

Toda a vizinhança soube da coisa, e não houve bicho careta que não jogasse no cachorro. Os bicheiros do bairro levaram um tiro, porque efetivamente foi o cachorro que deu.

Quando vieram trazer os duzentos mil-réis à viúva, ainda não tinha saído de casa o cadáver do marido.

Ela ficou desesperada, e, abraçando o caixão, exclamou entre lágrimas, com grande espanto das pessoas presentes:

— Perdoa, Manuel, perdoa! Tu me disseste que jogasse tudo no cachorro, e eu joguei apenas dez mil-réis! Agora vejo que estavas inspirado pela bondade divina, e querias deixar tua família amparada!... Recebi apenas duzentos mil-réis! Perdoa Manuel, perdoa!

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