Cover of Piedade Filial

Classic · Brazilian Portuguese

Piedade Filial — a short story by Artur de Azevedo, in Portuguese with help

By Artur de Azevedo

Brochado, a successful young clerk in Rio, misses his father back in Portugal and asks a painter for an oil portrait of him.

Level
B2
Time
4 min
Length
452 words
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The story

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Piedade Filial

O Brochado veio rapazito para o Rio de Janeiro e saltou aqui com o pé direito, porque arranjou logo emprego, e dois anos depois estava primeiro caixeiro, com magnífico ordenado e caderneta na Caixa Econômica.

Considerava-se feliz; só uma coisa o afligia: as saudades do pai, que deixara na aldeia.

Um dia em que, passando por uma loja da Rua do Ouvidor, viu exposto um retrato a óleo, lembrou-se de mandar pintar o do velho, a fim de pendurá-lo defronte da cama. Não podendo ter perto de si a pessoa, teria ao menos a imagem de seu pai!

O Brochado informou-se da residência do pintor e foi ter com ele.

— Vinha pedir-lhe que me pintasse o retrato de meu pai.

— Com todo o gosto.

— Mas não queria coisa que me custasse mais de trezentos mil-réis. ~ quanto posso pagar.

— Está dito! Esse não é o meu preço, é muito barato; mas como o senhor não pode pagar mais, paciência! Onde está o senhor seu pai?

— Em Portugal.

— Ah! está ausente? É pena, porque não gosto de fazer retratos senão diante dos respectivos modelos. Enfim, como não há remédio...

— Faz o retrato?

— Faço. Queira mandar-me a fotografia.

— Que fotografia?

— Do senhor seu pai.

— Não tenho.- Ah! não tem fotografia? Tem então um desenho?

— Que desenho?

— Um retrato qualquer do senhor seu pai.

— O retrato vai o senhor fazer-mo.

— Mas o senhor não tem outro, do qual eu possa copiar o meu?

— Não, senhor; se eu tivesse o retrato de meu pai, não lhe encomendava outro; bastava-me um!...

— O senhor supõe que eu seja um telefotógrafo?

— Um quê?

— Como quer o senhor que eu faça o retrato de uma pessoa que não conheço, que nunca vi, e que não está presente?

— Dar-lhe-ei todas as informações necessárias.

O pintor compreendeu então que espécie de homem tinha diante de si e logo pensou em não perder os trezentos mil-réis que estavam ganhos.

— Pois bem - disse ele - vamos às informações...

— Meu pai chama-se Francisco Brochado.

— O nome não é preciso.

— É viúvo.

— Adiante.

— Tem coisa de cinqüenta anos. É alto, magro, barbado, louro, e corta cabelo à escovinha. Eu pareço-me com ele.

— É quanto basta - disse o pintor. - Daqui a três dias pode mandar buscar o retrato.

O Brochado Filho saiu, e no dia aprazado lá estava em casa do artista.

— Ali tem seu pai! - disse este apontando para um retrato que estava no cavalete.

O Brochado aproximou-se, teve um gesto de surpresa e levou muito tempo a olhar para a pintura.

Depois, as lágrimas começaram a deslizar-lhe pela face.

— Que tem o senhor?... Por que chora? - perguntou o pintor.

E o pobre diabo, com a voz embargada pelos soluços, exclamou:

— Como meu pai está mudado!...

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