Cover of Por Não se Entenderem

Classic · Brazilian Portuguese

Por Não se Entenderem — a short story by Artur de Azevedo, in Portuguese with help

By Artur de Azevedo

Zeca Borges, a small farmer, travels to Rio to visit his brother, a consul just back from Germany.

Level
B2
Time
5 min
Length
608 words
Audio
Read aloud

The story

Press play and follow the highlight. In the Reader, every word you tap is explained in its sentence and saved for review.

B2608 words 5 minRead with tap-to-translate →

Por Não se Entenderem

O Zeca Borges, pequeno lavrador do Bananal, tinha um irmão cônsul na Alemanha, e, quando soube que esse irmão chegara ao Rio de Janeiro, com licença, ficou satisfeitíssimo, e ansioso por abraçá-lo, tanto mais tendo recebido imediata comunicação de sua residência, na Rua do Catete.

O Zeca meteu-se no trem, e na manhã seguinte estava no Hotel dos Estados, onde se demorou apenas o tempo necessário para tomar banho, mudar de roupa, fazer a barba e almoçar.

Depois do almoço, lá se foi ele a pé, Rua da Lapa acima, em busca do irmão saudoso.

Na casa indicada estava à janela uma senhora loura e bonita.

— Querem ver, pensou ele, que o Chico se casou na Alemanha com a filha do tal arquiteto, de quem tanto me falava nas suas cartas? Não foi outra coisa! o patife não me mandou dizer nada!...

O Zeca Borges tirou o chapéu à senhora, que lhe correspondeu com um sorriso amabilíssimo.

— Naturalmente conhece-me de retrato, pensou ele - e entrou.

Ela esperava-o de braços abertos no tope da escada, e deu-lhe muitos abraços e muitos beijos.

O paulista não estranhou a natureza de tão excessivas manifestações, que aliás nada tinham de fraternais; apenas achou, de si para si, que na Alemanha o sentimento da família estava mais desenvolvido que no Brasil.

— O Chico? - perguntou ele - não está?

Ela teve um olhar estúpido.

— A Senhora não é a mulher do Chico, meu mano?

Ela respondeu, com muita dificuldade, que não falava português.

— É justo, cunhada, é muito justo, mas como também eu não falo alemão, não haverá meio de nos entendermos! Que pena o Chico não estar em casa! Olhe, o melhor é voltar logo!

E deu um passo para a porta; mas a mulher passou-lhe uni braço em volta ao pescoço, e levou-o até à porta da alcova, que abriu com um gracioso pontapé, mostrando-lhe a cama.

Tudo isso pareceu muito esquisito ao Zeca Borges, mas como este era um rapaz inteligente, o que o leitor sem dúvida já percebeu, disse consigo que ela supunha, e com razão, que ele precisasse descansar porque vinha de viagem e passara, talvez, a noite em claro.

E mais se convenceu de que tal era a intenção da cunhada, quando esta lhe desatou o laço da gravata e desabotoou-lhe o paletó e o colete.

— Não! Isto agora é demais! Eu mesmo dispo-me! Pode ir! Pode ir!...

Ela saiu muito risonha, sempre depois de lhe dar mais um beijo e de lhe recomendar, por gestos, que a esperasse (o irmão, ao que ele supunha) e o nosso Zeca, mal se apanhou sozinho, entendeu que o melhor que tinha a fazer era despir-se, deitar-se e dormir.

Mas não havia três minutos que estava deitado, refletindo sobre o extraordinário desenvolvimento do sentimento da família na sociedade alemã, quando a mulher voltou e se dirigiu saltitante para ele, tendo vestida apenas uma camisola de seda escandalosamente diáfana.

Calcule-se o espanto do paulista, que deu um pulo como se visse o demônio e foi agachar-se a um canto da sala, gritando:

— Não se aproxime, cunhada, não se aproxime!...

Ela convenceu-se então de que tinha em casa um doido e começou a gritar.

Acudiram outras mulheres, que felizmente falavam português, e tudo se esclareceu. O Zeca Borges tomara um algarismo por outro, entrara numa casa de mulheres julgando entrar em casa do irmão.

Houve grande risota entre o mulherio, e o próprio Zeca foi obrigado a rir da sua ingenuidade, oferecendo uma nota de cinqüenta mil-réis à húngara, que não era alemã, e ainda menos sua cunhada.

Meia hora depois abraçavam-se os dois irmãos. O cônsul estava ainda solteiro.

Read next

All classic brazilian stories →Every text, by level →Find your level in ten minutes →