Cover of Uma Carga de Sono

Classic · Brazilian Portuguese

Uma Carga de Sono — a short story by Artur de Azevedo, in Portuguese with help

By Artur de Azevedo

So as not to miss his 5 a.m. train to Minas, Alfredo stays up all night.

Level
B2
Time
5 min
Length
562 words
Audio
Read aloud

The story

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Uma Carga de Sono

Como o Alfredo tinha que partir para Minas às 5 horas da manhã, entendeu que o meio mais seguro de não perder o trem, o que mais de uma vez lhe sucedera, era passar a noite em claro.

Assim foi. Esteve no teatro até meia-noite, foi cear com alguns amigos, demorou-se no restaurante até as 2 horas, deu um passeio de carro pela Avenida Beira-Mar e, às 5 horas, estava comodamente sentado no trem, de guarda-pó e boné de viagem.

Partiu o carro ainda ao lusco-fusco, só ali pelas alturas do Encantado o sol resolveu entrar lentamente pelas portinholas.

O Alfredo começou então a examinar um casal que estava sentado diante dele. Começou pelo marido: era um sujeito vulgaríssimo, que se parecia com todo o mundo, e tanto poderia ser negociante como empregado público, industrial, etc. Tinha uma dessas caras inexpressivas, que se adaptam a todas as profissões.

Passou o Alfredo a examinar a senhora e não pôde conter um gesto de surpresa reconhecendo nela uma bonita mulher que um dia encontrara num bonde das Laranjeiras, e o namorara escandalosamente.

Havia oito meses que o Alfredo a procurava por toda a parte, passando em vão repetidas vezes pela casa daquele bairro onde ela entrara quando saiu do bonde.

O não tê-la encontrado nunca mais lhe exacerbara a impressão amorosa deixada no seu espírito, mais que no seu coração, por aquela formosa mulher, e não se pode exprimir a alegria que lhe produziu a presença dela naquele trem, embora acompanhada por um indivíduo que, pelos modos, tinha direitos adquiridos sobre ela.

A desconhecida animou o rapaz com um desses sorrisos com que as mulheres, num segundo, se entregam de corpo e alma a um homem, e como os dois namorados não podiam apertar a mão um do outro, serviram-se dos pés como intérpretes dos seus sentimentos. Felizmente o Alfredo não tinha calos, que, se os tivesse, ficariam em petição de miséria.

Era impossível qualquer outra correspondência que não fosse aquela, porque o marido não arredava pé dali. O Alfredo alimentava uma vaga esperança de que ele descesse na estação de Belém para tomar café, mas qual, o homenzinho era inamovível.

Na Barra do Pirai o casal subiu ao restaurante para almoçar, e o Alfredo subiu também, mas não lhe foi possível chegar à fala.

Depois do almoço, o pobre namorado começou a sentir os efeitos da noite passada em claro: as pálpebras pesavam-lhe como se fossem de chumbo, e ele fazia esforços heróicos para não dormir; mas o sono foi implacável, e, quando o trem passou por Juiz de Fora, já ele dormia a sono solto, esquecido dos olhos e do pé da sua bela companheira de viagem.

Foi perto de Palmira que o desgraçado acordou, e - oh, desgraça! - estavam vazios os dois lugares defronte dele. A moça desaparecera... quando?... onde?... em que estação?... Era impossível sabê-lo!

O Alfredo passou os olhos estremunhados por todo o vagão, na esperança de que ela e o marido houvessem simplesmente mudado de lugar. Nada!.

Só então reparou que tinha na mão um anúncio de hotel, desses que em cada estação atiram aos passageiros.

Ele dispunha-se a deitar fora esse pedaço de papel inútil, quando reparou que nas costas d0 anuncio havia qualquer coisa escrita a lápis, com letra de mulher.

E o Alfredo leu: "Quem ama não dorme."

Nunca mais a viu.

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