Classic · Brazilian Portuguese
O chefe político e o seu eleitor — a short story by Lima Barreto, in Portuguese with help
By Lima Barreto
Felício, a loyal party voter who owes a doctor and party boss many favours, comes to explain why he will not follow the party line in the presidential election.
- Level
- B2
- Time
- 7 min
- Length
- 694 words
- Audio
- Read aloud
The story
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O chefe político e o seu eleitor
Seu doutor, eu vim incomodá-lo; mas precisava muito ficar bem com minha consciência.
— Você está ficando indisciplinado; não é mais o correligionário disciplinado de antigamente. Que diabo foi isso?
— Eu não tenho sido companheiro para você?
— Sim senhor. Devo ao doutor todos os obséquios desta vida, pelo que lhe sou muito agradecido. Foi o doutor que abaixo de Deus, salvou a Marocas, minha mulher, sem cobrar nada... Quando foi o enterro do meu filho Dodoca, o doutor me ajudou muito...
— Não; vem sim, doutor! Quero que o senhor não pense que sou mal agradecido. Se estou empregado, devo ao doutor e...
— Se você continuasse no partido, podia subir ou nós arranjávamos uma equiparação ou mesmo um aumento de vencimentos; mas...
—É sim Felício! Em política, quem não é por mim é contra mim. Você sabe disso não é?
— É e não é. Não estou contra o senhor não senhor! É que me deu uma coisa cá dentro e eu...
— Eu me explico, tanto mais que tenho pensado muito no caso. O senhor quer me ouvir?
— Vou contar. Trata-se - não é verdade? - de escolher o homem que vai governar isto tudo. Quero dizer que ele vai governar todos os brasileiros, inclusive eu.
— Espere doutor! Pensei, então, eu cá com os meus botões: vou escolher uma pessoa que deve mandar em mim, na minha mulher, nos meus filhos, na minha casa até - preciso cuidado. Não é doutor?
— Mais ou menos, é, pois há a lei que ...
— Isto de lei é história. Quem governa é ele mesmo...
— Um homem que vai ter tanto poder sobre mim, sobre os meus e sobre as minhas coisas para ser escolhido por mim mesmo, deve ser meu conhecido velho. Voluntariamente pela minha própria vontade, vou escolher um dono para mim, e sendo assim o meu dever é estar inteirado do sujeito que é - não acha?
— Sim, não há dúvida. Mas você sabe bem quem é o Rui, penso eu.
— Conheço. É um homem muito inteligente...
— Sei de tudo isto doutor. Mas daí não posso concluir que ele possa mandar-me.
— Quer dizer que ele nunca me enxergará, não é?
— Ele pode não me enxergar, mas um dia enxerga outro por ele, e lá estou eu a braços com um homem de veneta.
— Esse ouço dizer que também é inteligente, doutor, tem sido muita coisa...
— Sei, doutor. Rui Barbosa não tem igual.
— Não voto porque não o conheço intimamente, de perto, como já disse ao senhor. Antigamente...
— É verdade; mas, de uns tempos a esta parte, dei em pensar.
— Não falo mal do partido. Estou sempre com ele, mas não posso por meu próprio gosto dar sobre mim tanta força a um homem, de que eu não conheço o gênio muito bem.
— Mas, se é assim, você terá pouco que escolher a não ser, nós colegas e nós amigos de você.
— Entre esses eu não escolho, porque não vejo nenhum que tenha as luzes suficientes; mas tenho outros conhecidos, entre os quais posso procurar a pessoa para me governar, guiar e aconselhar.
— É a única pessoa de hoje que vejo nas condições e que conheço. O senhor é do partido, e votando no senhor, não vou contra ele.
— Voto no senhor, para presidente da república.
— Não tem nada; mas voto de acordo com o que penso. Parece que sigo o que está no manifesto assinado pelo senhor e outros. "Guiados pela nossa consciência e obedecendo o dever de todo republicano de consultá-la"...
— É mas você deve concordar que um eleitor arregimentado tem de obedecer ao chefe.
— Sei, mas isto é quando se trata de um deputado ou senador, mas para presidente, que tem todos os trunfos na mão, a coisa é outra. É o que penso. Demais...
— Você está com teorias estranhas, subversivas...
— Não tenho teoria alguma, doutor. Consultei a minha consciência e a minha gratidão, e voto no senhor.
— Que tem? Sobe mais um posto, ganha mais...
— Não preciso, já ganho na clínica muito.
— Com o lugar de deputado? Então pra que quis ir para a Câmara?
— Doutor, eu decididamente não compreendo nada disto. Essa política é mesmo igual aos mistérios dos padres... Passe bem.
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