Graded novel · Brazilian Portuguese
Inocência — a graded novel in Brazilian Portuguese
By Visconde de Taunay
A sick girl, a travelling doctor, and a father's word.
- Level
- B1
- Time
- 104 min
- Length
- 10 chapters, 12,958 words
- Audio
- Read aloud
About the book
July 1860, in the sertão of Mato Grosso. A young travelling healer who lets people call him doctor is taken home by a talkative farmer to cure his daughter of fever. The daughter is Inocência: eighteen, beautiful, and already promised, by her father's word, to a cattle driver she has met twice. A German butterfly collector arrives in the middle of the night and takes all the father's suspicion; the doctor takes the daughter's heart. They meet at her window, then at dawn by the stream. Her godfather is their last hope. Taunay's beloved novel of 1872, Brazil's great love story of the backlands, retold in ten short chapters for learners of Brazilian Portuguese: the words you need, sentences you can follow, and the ending kept whole.
Alfredo d'Escragnolle Taunay (1843–1899), later Visconde de Taunay, was an army officer, engineer, painter and writer from Rio de Janeiro. As a young man he crossed the sertão of Mato Grosso during the Paraguayan War, and his account of a terrible retreat, A Retirada da Laguna, made him famous. Inocência came out in 1872 and became one of the most read Brazilian novels of its century: a love story set in the real places he had ridden through, the sand road from Sant'Ana do Paranaíba towards Camapuã.
The sertão of 1860 was the far interior: days between houses, no doctors, no priests, no news. Families lived on corn, beans and pigs, and travellers slept in the front room of any house, while the women stayed behind a wall that no stranger passed. A father gave his daughter in marriage by his word, and 'palavra de mineiro', a man from Minas keeping his word, was a point of honour stronger than the law. Taunay shows this world with love and with sorrow: the book's tragedy comes from its customs, not from a villain.
This retelling keeps Taunay's plot, his people and his best lines, in Brazilian Portuguese of today and in the grammar and vocabulary of level B1. The long descriptions of the landscape are shortened, the old country speech (vosmecê, nhor-sim) becomes today's você and sim, senhor, and a few minor figures are left out. Two things the book shows are kept as the book shows them: the farm, like the whole sertão, ran on enslaved labour (a escrava Maria Conga; os escravos na roça), and Brazil only abolished slavery in 1888; and Tico, the mute dwarf who loves Inocência and betrays her lovers, is a person, not a joke.
Three things to notice in the Portuguese. Pereira calls his daughter Nocência: in the sertão a first syllable often falls away. Her question at the window, Ué, pois amor é sofrimento?, 'So love is suffering?', is the moment the book turns; ué is still the most Brazilian of exclamations. And the fiancé's last words before the shot, Conhece Nocência?, 'Do you know Nocência?', are a question that is also a sentence: in this world, to know a man's promised bride is already a crime.
Where the legend is written down: Visconde de Taunay, Inocência (1872, Wikisource).
The first chapter
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O viajante
A estrada que vai da vila de Sant'Ana do Paranaíba aos campos de Camapuã atravessa o sul de Mato Grosso. É uma faixa branca, aberta na areia. Em alguns pontos, a areia é tão solta que os animais afundam até meia perna. Depois das últimas casas, começa o sertão que o povo chama de bruto. A gente anda dias inteiros sem ver uma casa, sem ver ninguém. Só campo até onde os olhos alcançam e, de vez em quando, água clara entre árvores altas.
O dia 15 de julho de 1860 estava claro, calmo e fresco, como são os dias de inverno no interior do Brasil. Por aquela estrada, seguia um viajante sozinho, montado numa boa mula cor de cinza, gorda e de passo fácil. Usava um chapéu grande, uma capa de muitas cores e botas de couro bem feitas. Tinha, no máximo, vinte e cinco anos: olhos negros, barba e cabelo curtos, um ar inteligente e decidido. Na mão, levava uma vara longa e batia com ela nas folhas das árvores que passavam perto. Às vezes, puxava um relógio de prata e olhava as horas. Faltava pouco para o meio-dia, e ele tinha tempo de sobra.
Não ficou sozinho por muito tempo. Logo, outro viajante chegou ao lado dele, num cavalinho feio, mas forte. O homem já tinha certa idade. Era gordo, de rosto vermelho e franco, e se vestia como os mineiros.
— Olá, amigo! — gritou ele, aproximando o cavalo da mula. — Então, está indo para Camapuã?
O moço olhou para ele de lado. Não gostou da pergunta tão sem cerimônia.
— Talvez sim… talvez não… Mas por que a pergunta?
— Ah, desculpe! — respondeu o outro, rindo. — Nem cumprimentei o senhor… Isso sempre acontece comigo… A minha língua fica doida…
— Não que eu seja mal-educado, Deus me livre. Mas me pega uma vontade de falar… e eu vou falando, sem parar…
O moço olhou de novo. Viu um rosto alegre e bom, e sorriu também.
— Pelo que vejo, o senhor gosta de conversar.
— E como gosto! — respondeu o mineiro. — Neste sertão, só sinto falta de uma coisa: de um cristão para conversar. Aqui tudo anda calado!…
— Eu, não — continuou ele. — Sou de Minas Gerais. Já faz mais de quarenta anos que saí da casa dos meus pais. E o senhor?
— Sou de São Paulo. Nasci em Casa Branca, mas fui criado em Ouro Preto.
— Então é quase da família! — riu o mineiro, alto. — Por isso o meu coração bateu mais forte quando vi as marcas da sua mula na areia.
— "Aí vai um moço sem pressa", pensei eu. E toquei o meu cavalo, o Canivete, para alcançar o senhor. Fiz mal?
— Não, senhor — disse o moço.
— Pois eu moro a meia hora daqui, virando à esquerda. Venha dormir na casa de quem é pobre, mas amigo de servir.
Um convite tão amável não podia ser recusado, ainda mais naquele fim de mundo.
— Com muito prazer — disse o moço. — É a primeira vez que atravesso este sertão. Durmo onde posso, com os meus dois homens e as cargas.
— Na minha casa não tem luxo, mas tem bom feijão, arroz e café com doce.
— Mas agora que somos amigos — continuou o mineiro —, vamos saber com quem falamos. Eu me chamo Martinho dos Santos Pereira. E o senhor?
— Cirino Ferreira de Campos, às suas ordens.
— Casei muito novo — contou Pereira — e abri uma loja em Minas. Depois de alguns anos, a minha mulher morreu. A vida começou a dar errado.
— Então vendi tudo e entrei no sertão com três escravos. Há doze anos moro aqui, e nunca passei necessidade. E o senhor vai para onde?
— Olha, seu Pereira, não tenho destino certo. Ando por estes lugares curando febres e feridas.
— Ah! — gritou Pereira, muito contente. — Então o senhor é doutor?
— É verdade — confirmou Cirino, com gosto.
— Ora, muito bem! Cai-me a sopa no mel! O senhor chegou na hora certa.
— Por quê?
— Tenho uma menina doente com febre, minha filha. Por isso fui a Sant'Ana comprar quinina. Mas lá não tinha, e eu voltava muito preocupado.
— Trago muito remédio nas minhas malas — interrompeu Cirino. — Para febres, tenho uma receita que não falha.
— Há quantos dias a menina tem a febre? — perguntou o tal doutor.
— Faz hoje dez dias. Até agora era uma menina forte, cheia de saúde. Pegou isso na vila de Sant'Ana, que é um ninho de febres.
— Ela pediu tanto para ir ver a mulher do major Taques… O senhor conhece o major? Aquilo é que é homem! Conta histórias que não acabam mais…
— Seu Pereira — cortou Cirino. — Vou fazer algum negócio por aqui?
— Depende. Doente tem muito, mas é tudo gente pobre. Perto de mim mora o Coelho, que está morre não morre há anos. Esse tem dinheiro, e talvez pague bem.
— O senhor traz bastante quinina?
— Trago, mas é cara.
— Que é cara, eu sei. Mas aqui tudo é febre.
Pereira falou, falou. Cirino ouvia calado e distraído. Por fim, o mineiro notou a tristeza do companheiro.
— O senhor parece triste. Deixou alguma coisa para trás?
— Para ser franco — respondeu Cirino, com um suspiro —, deixei. Uma dívida… de jogo.
— Isso não é bom — disse o mineiro, fechando um pouco a cara. — É muito?
— Trezentos mil-réis.
— Já é dinheiro grosso. E com quem o senhor jogou?
— Com o Totó Siqueira, de Sant'Ana. Dei a ele um papel assinado e prometi mandar o dinheiro por um dos meus homens.
— O senhor não imagina quanto essa dívida me pesa. Não pelo dinheiro. Mas foi a primeira vez que peguei em cartas na minha vida.
— Então que sirva de lição. Tome cuidado com a gente que viaja por aqui: homens de tropa e de carro de boi. Isso é um bando de jogadores.
— Por qualquer coisa, enfiam uma faca na barriga de um cristão. E o jogo, quando entra no corpo de um homem, faz ninho e não sai mais.
Os dois já tinham andado muito. O sol descia, e o vento da tarde chegava fresco e leve.
— Aqui é a minha entrada — disse o mineiro. — Vire por aqui, seu Cirino.
O caminho, cheio de sombra, dava num riacho claro, debaixo de uma árvore grande e cheia de flores. Os animais ouviram a água, apertaram o passo e beberam com força.
— Não deixe a sua mula beber demais — disse Pereira. — Upa, Canivete! Vamos matar a fome no milho!
O sol já se escondia. Acima do mato baixo, apareceu a ponta de um mastro de São João, lembrança da festa de junho. O mineiro sorriu: era o sinal da casa querida.
Antes de entrar na casa, vamos dizer quem era aquele moço com o título de doutor. Cirino nasceu em Casa Branca, em São Paulo. O pai vendia remédios e cuidava do correio. Aos doze anos, foi morar em Ouro Preto, com um tio velho. Estudou num colégio de padres, mas saiu de lá sem acabar os estudos. Depois trabalhou numa farmácia velha. Entre os vidros de remédio, começou a aprender. Numa cidade pequena, de quem vende remédios a médico há só um passo. Cirino comprou um livro de medicina e saiu a cavalo, dando remédios aos doentes. Nas viagens, as pessoas começaram a chamar o moço de doutor. Com o tempo, o título lhe pareceu natural, quase um direito. Toda a ciência dele estava naquele livro de medicina. Lia noite e dia, debaixo das árvores ou ao lado dos doentes. Sabia o livro de cor. Um dia, resolveu ir até Camapuã, para ganhar mais e ver terras novas. O coração daquele moço era bom. Mas tinha também um pouco de orgulho e gosto de aparecer. No sertão, o doutor é um homem caído do céu. Entra em todas as casas, come o melhor prato, dorme na melhor cama. Cirino não era médico. E, naquela noite, ia tratar de uma menina doente.
Words in this book
The words the text teaches on purpose. Most are in the 5,000 most common words; a verb links to its conjugation.
- o sertão
- the backlands, the remote interior
- o mineiro
- a man from Minas Gerais
- a mula
- mule
- a febre
- fever
- a quinina
- quinine (the fever medicine)
- o remédio
- medicine, remedy
- o escravo
- enslaved man
- o major
- major (an army rank; here the village's chief man)
- o tropeiro
- cattle driver, mule-train driver
- o hóspede
- guest
- o noivo
- fiancé
- o anão
- dwarf (a very short man)
- a escrava
- enslaved woman
- o laranjal
- orange grove
- o assobio
- whistle
- a borboleta
- butterfly
- o naturalista
- naturalist (a scientist who studies nature)
- o alemão
- the German; German
- o burro
- donkey
- os hóspedes
- guests
- os escravos
- enslaved people
- a honra
- honour
- o capataz
- foreman, overseer
- o padrinho
- godfather
- o vigário
- parish priest
- a pistola
- pistol
- o tiro
- shot (from a gun)
- a bala
- bullet
- a afilhada
- goddaughter