Cover of O Alienista

Graded novel · Brazilian Portuguese

O Alienista — a graded novel in Brazilian Portuguese

By Machado de Assis

A doctor, a town, and a house with green windows.

Level
B1
Time
90 min
Length
10 chapters, 11,642 words
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About the book

Dr. Simão Bacamarte, the greatest doctor in the colony, builds a house for the mad in the little town of Itaguaí. Then he decides to find the exact line between reason and madness, and moves it. First the generous go in, then the proud, the polite, the talkative, the councillors, the barber who led a revolt, and the doctor's own wife. Then he moves the line again. Machado de Assis's most famous satire, written in 1882, retold in ten short chapters for learners of Brazilian Portuguese: the words you need, sentences you can follow, and Machado's dry humour intact.

Machado de Assis (1839–1908) is Brazil's greatest writer. The grandson of freed slaves, born poor in Rio de Janeiro, he taught himself and became the founder and first president of the Brazilian Academy of Letters. O Alienista came out in 1882, in the collection Papéis Avulsos, when he was writing his sharpest books: Memórias Póstumas de Brás Cubas had appeared the year before, and Dom Casmurro would follow in 1899.

Itaguaí is a real town near Rio de Janeiro. The story is set in colonial times, when Brazil belonged to the king of Portugal and was governed by a viceroy, and each town by its Câmara, a council of vereadores. An alienista was the old word for a doctor of the mind: the mad were called alienados, people estranged from reason. Machado wrote the story as a satire of the new science of psychiatry, but also of every power that decides who is normal: the doctor, the council, the barber who seizes the town, and the crowd that cheers each of them in turn.

This retelling keeps Machado's plot, his characters and his best lines, in Brazilian Portuguese of today and in the grammar and vocabulary of level B1. Some things are left out: his Latin and his quotations, a lawyer's case, a few minor names. One thing is not: the house in the story, like the town, was run by enslaved people, and the retelling keeps the source's words where they appear (a escrava Benedita, um escravo). Brazil only abolished slavery in 1888, six years after the book.

Three things to notice in the Portuguese. The narrator keeps saying dizem as crônicas, 'the chronicles say': he pretends to report old records, and never says what he thinks himself. Dona Evarista's Deus sabe o que faz, 'God knows what He is doing', is what Brazilians still say when they accept something they cannot change. And Preso por ter cão, preso por não ter cão, 'jailed for having a dog, jailed for not having one', is a proverb for being blamed whatever you do; the barber Porfírio is its perfect example.

Where the legend is written down: Machado de Assis, O Alienista, in Papéis Avulsos (1882, Wikisource).

The first chapter

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B111,642 words 8 min for this chapterRead with tap-to-translate →

A Casa Verde

As crônicas da vila de Itaguaí contam que, em tempos antigos, morou ali um certo médico, o doutor Simão Bacamarte. Era filho de uma família nobre da região e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e da Espanha. Tinha estudado em Coimbra e em Pádua. Aos trinta e quatro anos, voltou para o Brasil. O rei de Portugal queria o doutor em Coimbra, dirigindo a universidade, ou em Lisboa, cuidando dos negócios do reino. Ele não aceitou.

— A ciência — disse ele a Sua Majestade — é o meu emprego único. Itaguaí é o meu universo.

E foi para Itaguaí, uma vila pequena perto do Rio de Janeiro. Lá, ele se entregou de corpo e alma à ciência. Curava doentes de manhã e lia livros à tarde. Aos quarenta anos, casou com dona Evarista, uma viúva de vinte e cinco anos, nem bonita, nem simpática. Um tio dele, homem franco, perguntou por que ele tinha escolhido aquela mulher. Simão Bacamarte explicou: dona Evarista tinha condições físicas de primeira ordem. Comia bem, dormia bem, tinha bom pulso e excelente vista. Estava, portanto, pronta para dar a ele filhos fortes, saudáveis e inteligentes. E, se, além de tudo, ela não era bonita, melhor ainda. Assim, ele não corria o risco de esquecer a ciência olhando para a mulher. Dona Evarista não deu filhos ao doutor, nem fortes, nem fracos. A ciência é paciente. O médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Então estudou o assunto a fundo, consultou universidades da Itália e da Alemanha e mandou a mulher fazer uma dieta especial. Dona Evarista, que adorava a carne de porco de Itaguaí, não seguiu a dieta. E a essa resistência, que se entende, mas não se perdoa, devemos o fim da família Bacamarte.

Mas a ciência cura todas as tristezas. O médico mergulhou de vez nos estudos de medicina. E um canto da medicina chamou especialmente a atenção dele: a loucura, as doenças da cabeça. Não havia no Brasil, nem em Portugal, uma só autoridade nesse assunto, que ninguém tinha explorado. Simão Bacamarte entendeu que a ciência do Brasil podia se cobrir de glória. Por fora, era modesto, como deve ser um sábio. Por dentro, já se via coberto de glória.

— A saúde da alma — disse ele — é a ocupação mais digna do médico.

— Do verdadeiro médico — corrigiu Crispim Soares, o boticário da vila, um dos amigos e companheiros de mesa do doutor.

Foi assim que o doutor virou alienista, isto é, médico dos loucos.

A Câmara de Itaguaí, entre outros pecados, tinha mais um: não cuidava dos loucos. Os loucos furiosos ficavam trancados num quarto, na própria casa, até a morte. Os calmos andavam soltos pela rua. Simão Bacamarte resolveu acabar com aquele costume. Pediu licença à Câmara para construir um edifício e tratar lá dentro todos os loucos de Itaguaí e das vilas vizinhas. As famílias pagariam o tratamento. Se a família não tinha dinheiro, a Câmara pagava. A proposta causou curiosidade e grande resistência. É difícil acabar com um hábito absurdo. A própria ideia de juntar todos os loucos numa casa só pareceu um sintoma de loucura. E teve gente que foi dizer isso à própria mulher do médico.

— Olhe, dona Evarista — disse o padre Lopes, o vigário da vila. — Veja se o seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom. Faz mal para a cabeça.

Dona Evarista ficou apavorada. Foi falar com o marido. Disse que estava com um desejo, um só: ir ao Rio de Janeiro. E lá comer tudo o que, segundo o marido, ajudava a ter filhos. Assim, ele teria de ir com ela. Mas o grande homem entendeu logo a intenção da esposa. Sorriu e disse que ela não precisava ter medo. Depois foi à Câmara, onde os vereadores discutiam a proposta, e falou tão bem que a maioria aprovou. A Câmara votou também um imposto para pagar o tratamento dos loucos pobres. Mas não foi fácil achar uma coisa nova para cobrar imposto. Em Itaguaí, já se pagava imposto sobre tudo. Depois de longos estudos, decidiram: os cavalos de um enterro podiam usar dois penachos na cabeça. Quem queria pôr penachos nos cavalos do enterro pagava algumas moedas à Câmara. E pagava de novo a cada hora passada entre a morte e o enterro. O funcionário da Câmara se perdeu nas contas do dinheiro que o novo imposto ia dar. Um vereador, que não acreditava no projeto, pediu para poupar o funcionário desse trabalho inútil.

— Essas contas não são necessárias — disse ele. — O doutor Bacamarte não vai conseguir nada. Quem já viu meter todos os loucos dentro da mesma casa?

O digno vereador se enganava. O médico conseguiu tudo.

Com a licença na mão, começou logo a construir. A casa ficava na Rua Nova, a rua mais bonita de Itaguaí naquele tempo. Tinha uma longa fila de janelas de cada lado, um pátio no centro e muitos cubículos, quartos pequenos para os hóspedes. Como conhecia bem os autores árabes, o doutor achou no Corão uma frase. Maomé diz que os loucos merecem respeito, porque Deus tira a razão deles e, assim, eles não cometem pecado. A ideia lhe pareceu bonita e profunda, e ele mandou gravar a frase na frente da casa. Mas, como tinha medo do vigário, e também do bispo, disse que a frase era do papa Bento VIII. Essa mentira, aliás inocente, teve o seu castigo: num almoço, o padre Lopes contou a ele a vida inteira daquele papa. A casa recebeu o nome de Casa Verde, por causa da cor das janelas. Era a primeira vez que apareciam janelas verdes em Itaguaí. A abertura da casa foi uma festa enorme. Veio gente de todas as vilas vizinhas, e até da cidade do Rio de Janeiro. As festas duraram sete dias. Muitos loucos já estavam recolhidos. Os parentes viram que os loucos iam ser tratados com carinho de pai e caridade cristã. Dona Evarista, muito feliz com a glória do marido, se vestiu com todo o luxo: joias, flores e sedas. Naqueles dias, ela foi uma verdadeira rainha. Todo mundo foi visitar dona Evarista duas ou três vezes. E, se tinham inveja dela, era a santa e nobre inveja de quem admira. No fim dos sete dias, acabaram as festas. Itaguaí tinha, finalmente, uma casa de loucos. O que o doutor queria fazer lá dentro, ninguém perguntou. As crônicas dizem que foi um erro.

Words in this book

The words the text teaches on purpose. Most are in the 5,000 most common words; a verb links to its conjugation.

o alienista
psychiatrist (the old word)
a crônica
chronicle, record
a loucura
madness
louco
madman; mad
o boticário
apothecary, pharmacist
o vigário
parish priest, vicar
o vereador
town councillor
o penacho
plume (on a horse’s head)
o imposto
tax
o cubículo
small cell, tiny room
a ocupação
occupation, work
modesto
modest
doido
mad, crazy
lunático
lunatic
a mania
obsession, mania
engendrar
to beget, to give rise to
a classificação
classification
a botica
apothecary’s shop
a teoria
theory
a matraca
wooden rattle of the town crier
o equilíbrio
balance
grotesco
grotesque
as faculdades
faculties, mental powers
o cárcere
prison, jail
o albardeiro
pack-saddle maker
a praga
curse
o terror
terror
o cruzado
cruzado (an old coin)
a herança
inheritance
o barbeiro
barber
a onça
jaguar
o chafariz
public fountain
a sanguessuga
leech
a petição
petition
o tirano
tyrant
a rebelião
rebellion
trezentas
three hundred
a revolta
revolt
a proclamação
proclamation
o vice-rei
viceroy
a navalha
razor
a demência
dementia, madness
o colar
necklace
a safira
sapphire
mania santuária
sumptuary mania (obsession with luxury)
o ofício
official letter
o parágrafo
paragraph
o desequilíbrio
imbalance
a vaidade
vanity
a cláusula
clause
modéstia
santuária

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