Cover of Senhora

Graded novel · Brazilian Portuguese

Senhora — a graded novel in Brazilian Portuguese

By José de Alencar

She bought the man who had sold her. Then she had to live with him.

Level
B1
Time
103 min
Length
10 chapters, 12,988 words
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About the book

Aurélia Camargo is eighteen, rich and alone, and the queen of every ball in Rio. She prices her suitors like goods: this one is worth a hundred contos, but she has money for a husband of a higher price. The man she wants is Fernando Seixas, elegant, poor, and about to marry a girl with a dowry of thirty contos. A year before, when Aurélia had nothing, he loved her and left her. Now she sends her tutor to buy him for a hundred, and on the wedding night she shows him the receipt. 'The gentleman was on the market; I bought him.' For eleven months they live in the same house as owner and purchased husband, polite and merciless, until he finds a way to pay himself back. José de Alencar's great novel of money and love, retold in ten short chapters for learners of Brazilian Portuguese: the words you need, sentences you can follow, and the famous lines intact.

José Martiniano de Alencar (1829–1877) was born in Ceará and lived in Rio de Janeiro, where he was a lawyer, a journalist, a deputy and for a time Minister of Justice. He wrote the novels Brazilians still read at school: O Guarani, Iracema, Lucíola, Diva, and in 1875, two years before his death, Senhora. He called it a 'perfil de mulher', a woman's profile; its four parts are named like a sale: O Preço, Quitação, Posse, Resgate, the price, the settlement, the possession, the redemption.

The book is set in the Rio of the Empire, around 1870: the 'Corte', the capital of Emperor Pedro II, with its balls at the Cassino, its Italian opera at the Teatro Lírico, its shops on Rua do Ouvidor and its new mansions in Laranjeiras and Botafogo. Marriage was a business: a girl's dowry (the 'dote') was discussed openly between fathers and suitors, and a rich orphan under twenty-one had a tutor appointed by the judge of orphans. Slavery was still legal (it ended in 1888); the Seixas family lives partly on the rent of two enslaved men, and Aurélia's maid, the 'mucama', is enslaved. Alencar lets his hero call himself a 'white slave', and the irony is meant.

The money matters, so the retelling keeps it in words. A conto was a thousand mil-réis, roughly a clerk's salary for a year or two. Seixas sells himself for a hundred contos; Adelaide's dowry is thirty; Aurélia inherits a thousand; Torquato lends fifty mil-réis for a chicken. The one exact figure in the book, 'Rs. 21:084$710', is twenty contos plus eleven months of interest at six per cent: the price of a man, repaid to the real.

This retelling keeps Alencar's plot, his people and his best lines, in Brazilian Portuguese of today and in the grammar and vocabulary of level B1. His essays on society, the long descriptions of dresses and furniture and the literary asides are shortened. Two things to notice in the Portuguese. Husband and wife call each other 'o senhor' and 'a senhora' for eleven months, the form you use with a stranger; the moment they say 'você' is the end of the book. And the title: 'senhora' is 'madam', but also 'owner'. Seixas says it with the vowel open, 'senhóra', the way a servant says it to his mistress.

Where the legend is written down: José de Alencar, Senhora (1875, Wikisource).

The first chapter

Press play and follow the highlight. Show the English under each paragraph when you need it. In the Reader, every word you tap is explained in its sentence and saved for review.

B112,988 words 10 min for this chapterRead with tap-to-translate →

A rainha dos salões

Há alguns anos, apareceu no céu do Rio de Janeiro uma nova estrela. Ninguém disputou o seu trono: foi a rainha dos salões. Era o ídolo dos noivos sem noiva. Quem não se lembra de Aurélia Camargo? Passou pela Corte, o Rio do Império, como uma luz, e se apagou. Tinha dezoito anos quando apareceu na sociedade. Era órfã e vivia com uma parente velha, viúva, dona Firmina Mascarenhas, que a levava aos bailes e ao teatro. Mas a viúva era só uma mãe de mentira, paga para acalmar a sociedade. Quem governava a casa era a moça. Tinha também um tutor, que ninguém via. Cercada de pretendentes, Aurélia entendeu logo o perigo. Daí veio o sorriso frio, uma máscara que estragava a sua beleza. Para aquela gente, só valiam os mil contos de réis. Então ela dava um preço a cada um: a cotação no mercado dos casamentos. Uma noite, no Cassino, a amiga Lísia Soares falou de Alfredo Moreira, um rapaz elegante vindo da Europa.

— É um moço distinto — respondeu Aurélia. — Como noivo, vale bem cem contos de réis. Mas eu tenho dinheiro para pagar um marido de maior preço, Lísia.

E o mundo é assim feito: o brilho frio de Aurélia era a sua maior atração. Moreira continuava o primeiro da lista.

Eram nove horas da manhã. Um sol forte de março batia nas janelas verdes de uma sala, nas Laranjeiras. Na luz fraca, Aurélia, deitada num sofá, parecia muito longe. Ali ela decidia toda a sua vida. Dona Firmina entrou e sentou o corpo gordo numa cadeira. Aurélia acordou e olhou o relógio. A viúva falou do baile. A moça a interrompeu:

— Que tal achou a Amaralzinha, dona Firmina?

— A filha do Amaral? A moça toda de azul? Bem bonita.

— E bem-educada. Foi a primeira vez que ela apareceu na sociedade. A primeira vez!

Perguntou, um pouco pálida:

— Seja sincera. Quem é mais bonita: a Amaralzinha ou eu?

— Ora, ora! A Amaralzinha pode se comparar com você? Nem em Paris existe moça com a sua educação.

— Obrigada! Mas o ouro tem uma fumaça invisível, que sobe à cabeça mais do que um charuto de Havana. A senhora também respira essa fumaça.

— Como você sabe das coisas! Sem isso, sozinha com a riqueza do avô, você ia ser enganada.

— Quem me dera! — disse a moça baixo, e voltou aos seus pensamentos.

De repente, Aurélia se levantou com um riso curto e frio, abriu as janelas e o piano. Cantou, em pé, a cena de uma mulher enganada pelo homem que ama. Depois fez da viúva o traidor, e tudo acabou em risadas.

No almoço, Aurélia, que quase não bebia, tomou uma taça de Xerez. Para dona Firmina, era claro: a rainha dos salões, enfim, gostava de alguém.

— Aqui anda algum segredo, Aurélia!

— Resolvi ser freira!

— Está bom!

— Mas o meu convento vai ser este mesmo mundo em que vivemos.

No quarto, Aurélia escreveu uma carta de poucas linhas e fechou o envelope devagar, como quem tem medo de desistir. De um pequeno cofre, entre cartas e flores secas, tirou um cartão de visita, já amarelo, e o guardou no bolso. Entregou a carta ao criado:

— Para o senhor Lemos! Depressa!

Uma hora depois, anunciaram o senhor Lemos.

— Recebi a sua carta no caminho. Pode mandar, Aurélia.

O senhor Lemos era um velho baixo e gordo como um vaso chinês, de olhos vivos. Saltava como um rapaz. Era irmão da mãe de Aurélia; o juiz de órfãos o fez tutor. No primeiro dia, quis levar a menina para a casa dele.

— Mas você ainda é menor, minha menina.

— Tenho dezoito anos.

— Só aos vinte e um pode governar a sua vida.

— É a sua opinião? Vou pedir ao juiz outro tutor, menos severo.

O Lemos achou melhor não discutir.

— Por aqui, meu tio! — disse a moça, abrindo a porta de um gabinete com uma mesa de pano azul.

Na outra porta apareceu Bernardina, uma velha pobre que a menina ajudava.

— Quis vir ontem — disse a velha, baixo —, mas não pude. Era para dizer que ele chegou.

— Já sabia!

— Ah! Quem lhe contou?

— Entre!

Aurélia fechou a porta. O Lemos notou tudo. "Com que história ela vem hoje?", pensou o velhinho.

O rosto de Aurélia agora era frio e firme como uma estátua. O tutor sentiu um frio por dentro.

— Chamei o senhor, meu tio, para um assunto muito importante. De meu casamento!

O velhinho saltou na cadeira como uma bola de borracha e esfregou as mãos.

— Não acha que já estou em idade?

— Certamente! Dezoito anos…

— Dezenove. Já conheço o mundo demais. E já escolhi o homem com quem vou me casar.

— Mas, como tutor, tenho de aprovar.

— Se o senhor negar, o juiz de órfãos dá a licença. E tenho outro argumento: a minha vontade. Por ela, sacrifico a herança de meu avô.

— São ideias da idade!

— Desses dezenove anos, dezoito eu vivi na pobreza mais extrema, e um na riqueza. Por isso sou mais velha do que o senhor.

O Lemos ficou tonto. Ela continuou:

— Antes eu conhecia o dinheiro como um tirano. Hoje o conheço como um cativo que obedece. Tenho a relação de tudo o que meu avô possuía, escrita pela mão dele.

Desta vez o velhinho vermelho ficou pálido.

— Com um tutor inimigo, eu examinava cada conta dele. Mas o senhor é um tutor amigo, que me faz todas as vontades…

— Lá isso é verdade! É um dever sagrado à memória da sua mãe, minha boa irmã!

O Lemos limpou no canto do olho uma lágrima, se é que não a inventou, o que parece mais provável.

— Conhece o Amaral, da alfândega? Tome nota. Ele ajustou o casamento da filha Adelaide com um moço que esteve fora do Rio. Ofereceu de dote trinta contos de réis.

A voz da moça tremeu um instante, e depois ficou dura. O Lemos ficou roxo e puxou o colarinho.

— Trinta contos?… Já não é mau começo!

— É preciso acabar com esse casamento. A Adelaide deve casar com o doutor Torquato Ribeiro, de quem ela gosta. Ele é pobre.

— E nós com isso, minha menina?

— Se o senhor garantir ao Amaral que esse moço tem uns cinquenta contos, acha que ele recusa?

— E de onde sai esse dinheiro?

— Eu dou.

A moça fez um esforço.

— Esse moço, prometido à Adelaide, é o homem que eu escolhi para meu marido. Ele não pode pertencer a duas. Por isso eu o disputo.

— Conte comigo! — disse o velho, já pensando nos lucros. — O nome?

Aurélia fez sinal de espera.

— Esse moço chegou ontem. Procure-o hoje mesmo e faça a proposta, sem o meu nome.

— Um casamento romântico! — riu o velho.

— Diga só que a noiva não é velha nem feia, e que é um negócio da família.

— E a proposta?

— A família deseja casar a moça com separação de bens, dando ao noivo cem contos de réis de dote. Se cem não chegam, duzentos.

— Cem chegam.

— Quero pagar o menor preço possível; mas o essencial é obter. Vou comprar a minha felicidade. Mais um ponto: quero este negócio por escrito, assinado por ele.

— E se ele desistir? Não há como obrigar o sujeito a casar.

— Confio na palavra dele, não na justiça. É o que espero da sua amizade, meu tio.

O Lemos deixou passar o sorriso na palavra "amizade" e leu as suas notas.

— Torquato Ribeiro… o outro, de cem para cima. Só falta o nome.

Aurélia entregou ao tutor o cartão amarelo. Ele abriu a boca para ler o nome em voz alta.

— Escreva!

O velhinho copiou o cartão e o devolveu.

— Entreguei nas suas mãos a única felicidade que Deus me reserva — disse ela.

O Lemos saiu. Chegou em casa tonto, com um nome que não tinha podido dizer em voz alta, e um preço.

Words in this book

The words the text teaches on purpose. Most are in the 5,000 most common words; a verb links to its conjugation.

o conto (de réis)
a conto: a thousand mil-réis, the big unit of money
os réis
réis, the old Brazilian currency (mil-réis, contos de réis)
o tutor
guardian (appointed by the court for an orphan)
o dote
dowry
o pretendente
suitor
a cotação
quotation, market price
a alfândega
customs house
o cativo
captive, slave
a herança
inheritance
o baile
ball (a formal dance)
o salão, os salões
drawing room; 'os salões' = high society
o camarote
box (at the theatre)
o escravo
slave
a repartição
government office
o jornalista
journalist
o tráfico
trafficking, trade in people
a ironia
irony
o mil-réis
mil-réis, the everyday unit of money (a thousand réis)
o enxoval
trousseau (the clothes and linen for a marriage)
o recibo
receipt
os juros
interest (on money)
o mercado
market
a vingança
revenge
a humilhação
humiliation
a pupila
ward (the orphan under a guardian)
a escritura
deed (a legal document)
o cartório
notary's office
o tabelião
notary
o reposteiro
door curtain
a câmara nupcial
bridal chamber
o fazendeiro
farmer, plantation owner
o corretor
stockbroker
a viúva
widow
a herdeira
heiress
o testamento
will (last testament)
a órfã
orphan (girl)
o luto
mourning
o cativeiro
captivity, slavery
o sarcasmo
sarcasm
o cheque
cheque
o toucador
dressing room, boudoir
a mucama
enslaved lady's maid
a madrinha
godmother; witness for the bride
o orgulho
pride
a valsa
waltz
valsar
to waltz
a quadrilha
quadrille (a square dance for couples)

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