Cover of Triste Fim de Policarpo Quaresma

Graded novel · Brazilian Portuguese

Triste Fim de Policarpo Quaresma — a graded novel in Brazilian Portuguese

By Lima Barreto

A man who loved his country more than it could bear.

Level
B1
Time
104 min
Length
10 chapters, 12,946 words
Audio
Read aloud

About the book

Major Quaresma comes home at a quarter past four every day, and the neighbours set their clocks by him. He is a quiet clerk at the War Arsenal with a library of only Brazilian books, and one passion: Brazil. He learns the guitar because the modinha is the nation's soul. He asks Congress to make Tupi the national language, and the whole city laughs. He buys a farm, because Brazil has the most fertile land in the world, and the ants eat his corn. When the navy revolts against the president, he sends a telegram: 'I ask for energy. I am on my way.' Lima Barreto's masterpiece of 1915, the funniest and saddest Brazilian novel of its time, retold in ten short chapters for learners of Brazilian Portuguese: the words you need, sentences you can follow, and the narrator's irony intact.

Afonso Henriques de Lima Barreto (1881–1922) was born in Rio de Janeiro, the grandson of enslaved people, the son of a printer. He worked as a clerk at the War Arsenal, like his hero, and wrote in the evenings. He was poor, Black in a country that had abolished slavery only in 1888, and bitterly clear-eyed about the Republic. Triste Fim de Policarpo Quaresma came out as a newspaper serial in 1911 and as a book in 1915. He died at forty-one; the book has been read ever since.

The Republic was proclaimed in 1889, when the army deposed the old Emperor Pedro II. Its second president was Marechal Floriano Peixoto, a soldier who answered in monosyllables and governed by not answering. In September 1893 the navy revolted in the bay of Rio and shelled the city for six months; the government won in March 1894 and quietly shot prisoners. Floriano's admirers, the 'jacobinos' and the positivists, treated him as a saint. Lima Barreto, who watched it as a boy, turned it into this book.

This retelling keeps Lima Barreto's plot, his people and his best lines, in Brazilian Portuguese of today and in the grammar and vocabulary of level B1. His long essays on politics, the suburbs and positivism are shortened; a crowd of minor names is left out. The book's world was still shaped by slavery: Anastácio and tia Maria Rita had been enslaved; the retelling says who they are plainly and without the language of 1915. The money matters: a conto was a thousand mil-réis; Quaresma's farm earns him two thousand five hundred and seventy réis in a year, about the price of a hat.

Three things to notice in the Portuguese. Quaresma is called major, but he is not a soldier: the title comes from a militia list he never paid for, and the whole country runs on such titles, doutor, coronel, general. The telegram 'Peço energia. Sigo já.' is still quoted in Brazil when someone volunteers for a lost cause. And the last words are Olga's, not his: 'Esperemos mais', let us wait a little longer. The book never says what happens to him. The title does.

Where the legend is written down: Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915, Wikisource).

The first chapter

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B112,946 words 10 min for this chapterRead with tap-to-translate →

A lição de violão

Como todos os dias, Policarpo Quaresma, mais conhecido como major Quaresma, chegou em casa às quatro e quinze da tarde. Major só no nome: o título vinha de uma lista antiga da Guarda Nacional, e ele nunca foi soldado. Fazia quase trinta anos que era assim. Saía do Arsenal de Guerra, onde trabalhava, comprava o pão e tomava o bonde. Sem erro de um minuto, estava na porta de casa, numa rua afastada de São Januário, no bairro de São Cristóvão. Era certo como o nascer do sol sobre o Rio de Janeiro. Os vizinhos conheciam o hábito. Uma dona de casa gritava para a empregada: "Olha a hora! O major Quaresma já passou."

Quaresma era um homem pequeno e magro. Usava pince-nez e olhava sempre para baixo, guiado pela ponta do cavanhaque. Vestia sempre fraque, um casaco longo, preto, azul ou cinza, e uma cartola alta, de modelo antigo. A biblioteca dele tinha janelas para a rua, e a rua via os livros cobrindo as paredes de cima a baixo. E todos os livros falavam do Brasil: romances, história, viagens. O major lia bem francês, inglês e alemão. Mas só amava o Brasil. Quaresma era patriota. Desde os vinte anos, o amor da pátria tomou conta dele. Não era um amor de palavras vazias: era um sentimento sério, total. Aos dezoito anos, quis ser militar. Os médicos do exército o acharam fraco. Ele sofreu, mas não falou mal da pátria. Foi trabalhar no Arsenal, entre soldados e papéis sobre armas. Ali respirava o ar da guerra, que é o ar da pátria. Defendia que o Amazonas era o maior rio do mundo e, para isso, roubava alguns quilômetros do Nilo. Fazia um ano que ele estudava o tupi, a língua dos índios, todas as manhãs, antes do sol. Na repartição, os colegas souberam e começaram a chamar o major de "Ubirajara", nome de índio. Um dia, o Azevedo disse alto, sem ver quem estava atrás: "Você já viu que hoje o Ubirajara está atrasado?" Quaresma não perdeu a dignidade. Arrumou o pince-nez, levantou o dedo e respondeu:

— Senhor Azevedo, não seja leviano. Não ponha em ridículo aqueles que trabalham em silêncio pela grandeza da pátria.

Naquele dia, o major só abriu a boca na saída, quando um colega disse: "Ah, meu Deus! Quando é que eu vou à Europa?"

— Ingrato! Você tem uma terra tão bela, tão rica, e quer visitar a dos outros! Eu, um dia, vou percorrer a minha de ponta a ponta!

Assim ele levava a vida: metade na repartição, sem ser compreendido, e a outra metade em casa, também sem ser compreendido.

Mas, nos últimos tempos, os hábitos do major tinham mudado. E o bairro falava. Três vezes por semana, um senhor magro e pálido entrava na casa dele com um violão num saco de couro. Um violão numa casa tão séria! Numa tarde de março, perto das quatro horas, as janelas da rua se encheram de gente. Até da casa do general Albernaz, o vizinho, vieram moças à janela. Era o major Quaresma, de cabeça baixa, subindo a rua com um violão debaixo do braço. Depois daquele dia, o respeito dos vizinhos diminuiu um pouco. Estava perdido, estava maluco, diziam. Ele não percebeu.

Naquele dia, foi a irmã quem abriu a porta.

— Já vai jantar?

— Ainda não. O Ricardo vem jantar hoje com a gente.

— Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, sério como você, andar metido com esse cantor de rua… não é bonito!

O major encostou o guarda-chuva antigo num canto e respondeu:

— Você está muito enganada, mana. A modinha é a expressão mais verdadeira da poesia nacional, e o violão é o instrumento que ela pede.

— Bem, Policarpo, eu não quero discutir com você. Continue lá com as suas manias.

Dona Adelaide era quatro anos mais velha, de olhos verdes e calmos. Nunca o entendeu, mas gostava dele.

E quem era o Ricardo? O senhor Ricardo Coração dos Outros, o rei da modinha nos subúrbios. Um rei pequeno, magro e pálido, de fraque longo. As melhores famílias de lá o convidavam; era rara a noite sem convite. E o que ele vinha fazer na casa de um homem tão sério? Ensinar o major a tocar violão e cantar modinhas. Nada mais. Quaresma tinha pensado muito numa pergunta: qual era a música da alma nacional? A resposta: a modinha. Então procurou o melhor mestre da cidade.

Ricardo chegou na hora. Mal entrou, dona Adelaide chamou os dois para a mesa. O velho Anastácio, empregado da casa havia trinta anos, trazia a sopa.

— O senhor Ricardo vai desculpar o nosso jantar simples. Eu queria fazer um frango com ervilha francesa, de lata, mas Policarpo não deixou.

— Disse que isso é estrangeiro — continuou ela — e mandou pôr guando, um feijão daqui, no lugar. Onde já se viu frango com guando?

— Deve ficar bom — disse Ricardo, educado.

— É uma mania do seu amigo, senhor Ricardo. Só quer coisas nacionais. Exemplo: a manteiga, que estraga logo.

— É porque é de leite. As estrangeiras são de gordura de esgoto; por isso não estragam… Não querem nada da nossa terra, Ricardo!

Quaresma pegou uma garrafinha de cristal e serviu dois copinhos de parati, a nossa bebida de cana.

— É de Angra. Álcool puro, bom, de cana. Essas bebidas estrangeiras não valem nada.

— Magnífico — disse Ricardo, satisfeito.

E o jantar correu assim. Quaresma defendia a banha e o arroz nacionais, a irmã resistia, e Ricardo dizia: "É, é, não há dúvida."

Os dois entraram na sala. A tarde caía devagar, muito devagar: o sol parecia não querer deixar a terra. Acenderam a luz de gás. O mestre pegou o violão, preparou as cordas e se abaixou sobre ele, quase num beijo.

— Vamos ver. Toque a escala, major: as notas, uma por uma.

— Olhe, major, é assim. O violão é o instrumento da paixão. Precisa de peito para falar…

Ricardo mostrou a posição certa: — Encoste o violão no peito, com carinho, com amor, como quem abraça a noiva. Só assim ele diz o que a gente sente. Diante do violão, Ricardo falava sem parar, tremendo de paixão por aquele instrumento que ninguém respeitava. A lição durou quase uma hora. Depois o major pediu uma canção. Ricardo, por orgulho, primeiro disse que não tinha nada novo.

— Cante uma de outro autor — sugeriu dona Adelaide.

— Por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O essencial é achar as palavras que o violão pede. Vou cantar a "Promessa". Conhecem?

— Não — disseram os dois irmãos.

Ricardo começou, em voz fraca: "Prometo pelo Santíssimo Sacramento que serei tua paixão…"

— Vejam — disse ele num intervalo — quanta imagem, quanta imagem!

As janelas estavam abertas, e moças e rapazes se juntaram na rua. Ricardo sentiu que a rua escutava. Então cantou com mais força e fez uma cara brava, que para ele era de carinho. Quando acabou, as palmas soaram do lado de fora.

Uma moça entrou, procurando dona Adelaide.

— Sente-se, Ismênia.

— É rapidinho.

Era uma das filhas do general Albernaz, o vizinho. Não era feia; era até simpática, de traços pequenos e bons. Numa pausa da conversa, dona Adelaide perguntou:

— Então, quando você se casa?

Era a pergunta de sempre. Ela virou de lado a cabeça triste, de lindos cabelos castanhos, e respondeu:

— Não sei… Cavalcânti se forma no fim do ano. Aí a gente marca.

O noivado já durava anos. O noivo, o tal Cavalcânti, estudava para dentista: um curso de dois anos, que ele arrastava fazia quatro. No fundo, Ismênia não se importava. Pressa não tinha. Depois explicou a visita: vinha, em nome do pai, convidar Ricardo para cantar na casa dela.

— Papai gosta muito de modinhas. É do Norte, a senhora sabe, dona Adelaide. Gente do Norte aprecia muito. Venham.

E para lá foram.

Words in this book

The words the text teaches on purpose. Most are in the 5,000 most common words; a verb links to its conjugation.

a pátria
the fatherland, one's country
o patriota
patriot
o major
major (here an honorary title)
o general
general
o violão
guitar
a modinha
modinha (a sentimental Brazilian song)
o tupi
Tupi (the language of the coastal Indigenous peoples)
o arsenal
arsenal (the army's depot and workshops)
o bonde
tram
a repartição
government office
a afilhada
goddaughter
o compadre
the father of one's godchild (a bond of kinship)
o almirante
admiral
o requerimento
petition, formal request
o deputado
member of Congress
o funcionário
civil servant
o hospício
asylum (for the mad)
a loucura
madness
louco
mad; a madman
o padrinho
godfather
o sítio
small farm
a roça
the fields; the countryside
a enxada
hoe
o tenente
lieutenant
a formiga
ant
o marechal
marshal (the highest army rank)
a revolta
revolt, uprising
a república
republic
o batalhão
battalion
o coronel
colonel
o canhão
cannon
o prisioneiro
prisoner
a prisão
prison

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